segunda-feira, 24 de março de 2014

Sem criatividade para títulos (24/03)

Está começando a ficar difícil imaginar que em menos de cinco meses, terei que me despedir deste universo que estou amando habitar. Agora, simplesmente não entra na minha cabeça que um dia não verei mais essas pessoas, que um dia terei que dizer ‘Adeus’ e partir. Não consigo mais ver minha vida sem tudo e todos pelos quais me apaixonei em tão pouco tempo. Eu amo simplesmente todas as pessoas que conheci (talvez a professora de Biologia nem tanto) e não suporto a ideia de que terei que ir para tão longe delas e sabe-se lá por quanto tempo vou ficar sem vê-las. Eu não sei como vou conseguir continuar minha vida sem todos. Pode parecer que estou sendo dramática, mas não é verdade. Em toda a minha vida, nunca gostei tanto de tantas pessoas tão rapidamente! Nunca gostei tanto a ponto de não conseguir mais imaginar uma rotina sem elas, e considerando que as conheço há menos de três meses, é muito amor. Não sei o que vai acontecer comigo quando voltar. Acho que uma parte minha vai estar feliz por rever entes queridos, mas outra grande parte estará destruída e arrasada. Acho que para sempre vou deixar um pedaço meu aqui, nesse par de ilhas. Vou precisar de muita força para retomar minha vida brasileira. Sim, sim, sei que preciso aproveitar enquanto estou aqui e não ficar pensando no futuro, mas quando se está predestinado a fazer algo que simplesmente não faz mais sentido, deixar de pensar no que vai acontecer se torna uma tarefa árdua. Como disse anteriormente, que estes seis meses sejam eternos.
Bom, agora vamos ao que interessa: a minha vida! Não sou convencida, mas você simplesmente não estaria aqui se não tivesse o mínimo de interesse pela minha vida.
Vou falar um pouco sobre o tráfico de Kerikeri, que é bem interessante, pois se baseia principalmente nos horários da minha escola! Por exemplo, só tem trânsito pesado por aqui no começo do dia, quando as aulas estão prestes a começar e no fim do dia, que é quando as aulas acabam! Mágico, não? Outra coisa que é muito interessante, além do fato de que os kiwis adoram andar descalços, é a autonomia que eles têm desde cedo: vejo crianças de seis, cinco anos indo para a escola sozinhas. Hoje, tive que tomar um ônibus para ir ao lago (não estou a fim de falar sobre esse episódio). Detalhe importante: aqui não tem transporte público! No fim do dia, os alunos podem escolher (muitas vezes gratuitamente) um dentre uns dez ônibus que vão para todos os cantos. Mas o negócio é que o ônibus que peguei estava entupido de crianças e como estava cansada demais para me importar com a baderna e o barulho, reparei em outras coisas: novamente, vi crianças de uns cinco, talvez até quatro anos. Fiz uma pequena comparação com o Brasil: lá, os transportes escolares muitas vezes são aquelas vans, onde são necessários dois adultos, um para dirigir e outro para tomar conta dos passageiros. Aqui, em um ônibus gigante, só é necessário um adulto para dirigi-lo e nenhum para lidar com as crianças, que sabem onde devem descer, quando devem descer e como se portar. Ao que tudo indica, os kiwis confiam muito mais em suas crianças e estas são muito melhores educadas que as brasileiras.
Hoje eu estava conversando com Alina e concluímos a mesma coisa: nós duas temos a impressão de que nosso inglês está piorando! Começo a ter dúvidas sobre a língua que antes não tinha, chega um dado ponto do dia que simplesmente não me sinto mais capaz de falar inglês, tudo acaba saindo errado. São nesses momentos que digo: “Vou aprender chinês, parece muito mais simples”. De verdade, nunca achei inglês tão difícil quanto estou achando no auge dos meus dois meses em Kerikeri. Às vezes, falo umas coisas que mais tarde, quando paro para pensar, não acredito que consegui dizer algo tão errado. Coisas que antes pareciam tão óbvias estão começando a gerar dúvidas na minha cachola. Quero só ver como vai estar a minha situação em julho. Porém, como sempre tem um porém, lembro de que a professora de inglês, Ms. Hardcastle, um dia nos disse que tudo isso é normal. Ela falou que no começo, só estamos preocupados em falar, falar e falar. Mas depois, conforme o tempo vai passando, nosso cérebro começa a se preocupar em falar as coisas da maneira correta, o que explica a exaustão, as dúvidas e toda a confusão pela qual estamos passando. Me pergunto quando vamos passar desta fase analfabeta.
Agora, quero compartilhar algo que aconteceu há duas semanas, numa sexta-feira com cavalos. Estava de tarde e nós só iríamos fazer um passeio pelas colinas verdejantes. Como não havíamos planejado nada mirabolante, decidimos que não precisaríamos de sela e fomos passear só de cabresto (e como você é um(a) bom(a) leitor(a), lembra direitinho o que cabresto é). Lá estávamos nós, passeando todas felizes e serelepes quando Trees e Julia, para variar, resolvem sair galopando. Os cavalos delas são muito bonzinhos e nunca fazem mais esforço do que o necessário, se é que você me entende. Alena e eu, ao vermos elas galopando, quisermos ir junto. Mas como estamos acostumadas com professores rígidos e nunca faríamos algo sem a permissão do responsável, fomos perguntar se podíamos fazer o mesmo. Nos falaram que sim, mas que deveríamos esperar eles chegarem até um local, assim, galoparíamos até eles. Como as duas boas meninas que nós somos, esperamos. Quando o grupo finalmente chegou ao ponto combinado, tocamos nossas éguas. E foi aí que a coisa não saiu como o planejado (o que costuma acontecer quando se anda a cavalo). As nossas éguas resolveram que fazer o mínimo esforço necessário era para os fracos, elas queriam dar o seu melhor. E VUM! Antes que pudesse perceber, Lily estava voando. Ela estava completamente na horizontal, como fazem os cavalos de corrida e indo tão rápido que a paisagem ao meu redor não passava de um borrão. O vento zunia em meus ouvidos tão alto que eu não ouvia nada além da respiração e dos cascos de Lily encontrando o chão em uma velocidade absurda. Estaria tudo certo se não fosse por dois detalhes: Primeiro: eu estava sem sela e, para quem não sabe, o dorso de um cavalo pode ser muito escorregadio; Segundo: eu estava sem bridão, ou seja, sem freio. No momento, eu não sabia no que eu deveria me concentrar mais: em me manter em cima do cavalo, que estava se mexendo rápido de mais, ou se eu devia tentar pará-lo. Puxar as rédeas foi completamente em vão. Elas não estavam ligadas à boca da Lily e não surtiam efeito nenhum, não importava o quanto eu puxava. Além do mais, a crina da égua estava tão comprida que se juntava às rédeas e acabavam por piorar o meu contato com o focinho de Lily. Resolvi usar outra técnica: curvar o cavalo. Quando um cavalo dispara, é muito útil você “dobrar” o pescoço dele e o fazer andar em pequenos círculos, porque aí ele acaba parando. Meu plano começou a dar certo e teria dado se duas coisas não tivessem me distraído: Um, nós estávamos nos aproximando (em super alta velocidade) do resto do grupo, o que me deu esperanças de que ela pararia e acabou por me distrair da minha tarefa. Dois, como eu começara a reduzir, a égua de Alena me alcançou, o que fez Lily resistir mais aos meus comandos e acelerar novamente. Nós ultrapassamos o grupo e as éguas pareciam não querer parar nunca. Foi então que eu vi. Vi algo que poderia ser tanto a minha salvação quanto a minha sentença. Havia uma cerca dividindo o pasto. Uma cerca alta com um portão fechado mais alto ainda e as éguas estavam indo para o portão. Algumas coisas cruzaram minha mente: Lily poderia parar no portão, e se isso acontecesse bruscamente, eu seria jogada para o chão. Ou, a hipótese que mais me assustou: Lily poderia tentar saltar o portão, e se isso acontecesse com ou sem sucesso, as chances de eu parar estirada no chão eram grandes. Como não me decidi entre rir ou chorar, comecei a repetir para mim mesma, mas esperando que Lily me ouvisse: “Por favor, pare no portão. Por favor, pare no portão”. E o portão se aproximando. Cada vez mais rápido. Cada vez mais perto. Como a égua não reduzia proporcionalmente à distância do portão, cogitei me jogar. Mas não o fiz. Eu não sabia como fazer e tinha medo. Então resolvi aguardar pela decisão e pelo bom senso da égua, já que a minha opinião não importava. Portão cada vez mais perto. Cada vez mais perto. Mais perto. Perto. E chegou. Finalmente chegamos ao portão. E finalmente Lily parou. Ela fez uma curva rente ao portão e súbita. Como o previsto, fui jogada para frente. Como o imprevisto, consegui me agarrar no pescoço da égua e me manter longe do chão. Ao me recuperar, olhei para Alena, que também ainda estava em cima. Ela me olhou de volta e começamos a gargalhar. Rimos, rimos e rimos até que os outros, exaltados, chegaram até nós com as bocas abertas, soltando exclamações e interrogações. Na hora, não importou. Estávamos felizes, pois mesmo sem trocar uma palavra, sabíamos que a última coisa que imaginávamos era que sobreviveríamos intactas. Falaram que nunca viram alguém ir tão rápido e ainda por cima sem sela. Eu também não. E se eu tivesse visto, nunca teria imaginado que não cairia, que sobreviveria da maneira que fiz. Também nunca senti tanto a falta de bridões como senti naquele momento. Naquela hora, senti medo, mas não acho que entrei em pânico, pois se tivesse, provavelmente esta história teria um final diferente e dolorido. Mas é por isso que gosto de cavalos, porque por mais domados que eles sejam, sempre dão um jeito de expressar sua natureza, sua sede por liberdade. E eles compartilham esses momentos com quem estiver olhando ou em cima de seu lombo. Naquela sexta-feira, Lily me emprestou sua força, sua vontade, e sua liberdade, para juntas, como uma, voarmos.


P.S.: Tinha que ter um final cândido e romântico, afinal, sou eu quem está escrevendo tudo isso.

sexta-feira, 14 de março de 2014

quarta-feira, 12 de março de 2014

Coisas de intercambista (11/03)

Aqui estou eu, vivendo como kiwi.
Não consegui pensar em uma boa introdução para este post então irei direto ao assunto: aprendi que é possível gostar de fazer algumas coisas se elas são realizadas de melhores maneiras. Por exemplo: aprendi que arrumar a cama pode não ser tão trabalhoso e exaustivo quando só se tem um tecido para arrumar. Lavar a louça pode não ser tão ruim quando se torna um momento em família, onde conversamos e damos muitas risadas (com direito a perseguições que podem variar: Judith atrás de Alina, Alina atrás de mim ou eu correndo atrás dela). Voltar para casa a pé também pode se tornar mais divertido quando usamos os 40 minutos de caminhada para usufruir da companhia de alguém querido. Também é muito mais gratificante saber que ao andar na rua não encontrarei comentários muito desagradáveis vindos dos motoristas. Aqui, posso andar de saia sem temer ouvir algo que não queira, o que definitivamente não acontece quando estou no Brasil. Esse fato me dá segurança e mais amor por estas ilhas.
Também estou vivendo a péssima noção que os kiwis têm sobre o Brasil. Muitos ficaram surpresos por eu ser uma brasileira tão branquela, me confundindo várias vezes como uma alemã. Outros, em plena aula de Geografia (uma brasileira me contou), perguntaram se o Brasil fica na Europa. Quando receberam a resposta queriam saber agora se falamos “brasileiro” e logo em seguida perguntaram se Portugal fica no Brasil porque não fazia o menor sentido dois países distintos falarem a mesma língua. Porque só kiwis falam inglês.
Esses dias, comecei a fazer uma lista de coisas que todo (ou a maioria) intercambista acaba passando por (acho que esse “por”, no lugar que o coloquei, acaba soando como se eu estivesse falando inglês. Infelizmente não me vem à cabeça outra maneira de usar tal palavra então manterei meu português iglesado), mais cedo ou mais tarde. Aqui vão os itens que tenho por enquanto:
·        Desapego- aprenda a se desapegar do que deixou para trás (família, amigos, objetos, animais) e ame o que está por vir e o que está acontecendo agora;
·        Rir sem motivo- se você for a um país que não fala sua língua nativa, acredite, haverá momentos em que todos começarão a rir loucamente quando você simplesmente não entendeu o motivo e não quer ser a única pessoa da roda que não está gargalhando;
·        Concordar com algo sem saber o que foi dito- você já pediu uma vez para repetirem algo, continua sem entender bulhufas e está com vergonha de pedir para repetirem de novo;

Gostaria de fazer um P.S. agora. Por tanto, P.S.: Um ciclone tropical está vindo em direção à Nova Zelândia e deverá chegar no fim de semana (hoje é quarta). Por tanto, se eu morrer, quero que todos saibam que eu sei que vocês sentirão muito a minha falta. Mas não se preocupem: podem deixar que irei puxar o pé de vocês à noite.

Agora um momento romântico, meloso e cândido, por tanto, se você não gosta desse tipo de coisa, pode mudar de página. Mas eu sei que a pessoa a quem esse momento é destinado continuará a ler.
Queria muito agradecer uma pessoa muito especial que mais do que ninguém me ajudou a tornar este intercâmbio possível: meu papai. Agora falarei diretamente com ele, mas sinta-se à vontade para usufruir deste sentimento.
Papai, acho que nunca serei capaz de te agradecer devidamente por tudo o que você fez por mim. Durante todos os meus 18 anos, você sempre teve uma participação muito especial em me ajudar a tornar meus sonhos em realidade. Você sempre acreditou neles e sempre me guiou à direção certa, mesmo quando eu estava relutante. Você sempre me ajudou a acreditar em mim mesma, a procurar os melhores caminhos e a seguir o que me faz sentido. Você vem me ajudando a chegar a mim mesma.
 Sou imensamente grata por tudo o que você pôde me proporcionar e nunca esquecerei nenhuma dessas oportunidades; sejam elas as de ouvir bons conselhos, enxugar lágrimas, dar risadas, pegar estrada, bater altos papos sobre tudo o que quisermos, usufruir da companhia do outro e acima de tudo, reforçar esse laço entre pai e filha tão importante e especial que nós temos.
Queria te tornar o pai mais feliz do mundo, pois você vem me fazendo a filha mais feliz que existe. Sempre lhe serei grata por absolutamente tudo e só lamento nunca conseguir te retribuir com algo à altura, mas continuarei tentando.

Papis, mais do que nunca, estou com saudades. 


quarta-feira, 5 de março de 2014

Para sempre seis meses (06/03)

No dia três de março completei um mês em Kerikeri. O que posso dizer sobre isso? É tanta coisa que fica difícil espremer na forma de simples palavras. Mas como só disponho de letras para transmitir meus sentimentos, farei um bom uso delas.
Eu diria que estou apaixonada. Apaixonada pela vida. Estou amando todos os segundos que respiro nessa ilha. Amo simplesmente tudo o que está me acontecendo e se pudesse, viveria para sempre nessa constante: para sempre seria uma intercambista que passaria seis meses como kiwi, para sempre, viveria durante seis meses na casa de uma inglesa na companhia de uma alemã. Para sempre, durante seis meses iria para uma escola sem muros conviver com pessoas dos quatros cantos do mundo, pessoas tão curiosas e cativantes. Para sempre, durante seis meses teria matérias escolares que nunca vi no Brasil. Para sempre, durante seis meses, eu viveria neste ciclo.
Infelizmente sei que meus seis meses não durarão para sempre, por isso, sempre continuarei a torna-los eternos.
A vida aqui continua. A aula de culinária continua uma savana africana. Eu continuo acordando todos os dias às 7h40 e por aí vai...
Existem, porém, alguns detalhes que merecem destaque. Semana passada, na aula de equitação, estava tão quente que pudemos nadar com os cavalos! Nem pude acreditar que estava indo para uma hípica de saia e biquíni. Lá, tive a ideia de ir sem sela até o lago e todas me copiaram. Foi só uma pena elas não terem feito o mesmo quando Lily pisou no meu pé descalço com tudo. Doeu. Muito. Passou uma semana e meu pé ainda tem um meio círculo marcado. Quando finalmente chegamos ao lago parecíamos crianças em um parque de diversão. Foi uma delícia nadar com os cavalos, pena que Lily não partilhou da mesma opinião.
À tarde fomos dar uns pulinhos na pista. Saltamos um quick (não estou a fim de explicar o que é isso. Quem sabe sabe, quem não sabe Google it) com seis obstáculos e o último chegou a mais de um metro de altura. Lily e eu fomos as melhores!
Outro dia, na escola, alguns alunos internacionais que já montaram com a Kate ficaram surpresos ao descobrir que eu monto a tal égua. Todos falaram que ela é doida e não faz nada o que pedem. Não comigo, baby! Depois de anos montando Chocolate e Fabulosa, aquela eguinha não tá com nada.
Também queria destacar um passeio que fizemos de barco no sábado passado (01/03). Para a brasileira aqui estava muito frio, mas o que vimos a seguir compensou tudo. Além das paisagens de tirar o fôlego, devo dizer que o que mais me atraiu foi a água do mar das mais variadas cores! No fim deste post colocarei algumas fotos. No passeio vimos golfinhos, tubarões, peixes azuis, uma montanha com um buraco embaixo, pedras da época dos dinossauros e por aí vai. Mas devo confessar que o que mais vi foi meu amor pela Nova Zelândia aumentando e aumentando.
Falarei um pouco sobre as matérias que estou tendo.
Biologia, assim como no Brasil, é muito interessante e eu gosto muito. Porém, assim como no Brasil, a Biologia daqui exige os maiores e mais trabalhosos relatórios que existem. Eu ainda não acredito no tamanho do relatório que eu terei que fazer. O pior é que tal relatório é sobre um experimento (que eu ainda devo realizar) muito chato! Nele, devo reportar o comportamento de graminhas aquáticas (não sei o nome em português) quando expostas a diferentes intensidades de luz. Eu já sei o que acontece no final, eu já sei que o relatório é entediante, eu já sei que devo fazê-lo em inglês e acima de tudo, eu já sei que não quero fazê-lo de jeito nenhum. Já fiz muitas coisas desse tipo no Brasil e não estou exatamente ansiosa para repeti-las no outro lado do mundo.
Em Outdoor Education estamos aprendendo a lidar com bússolas, mapas, coordenadas, como lidar com riscos e coisas assim. Nesta terça feira, realizamos a agradável atividade de nadar de caiaque na piscina da escola. Quero dizer, teria sido agradável se não estivesse frio, chovendo e ventando. Eu saí encharcada e espirrando, mas tá tudo certo. Pelo menos nós sabíamos como lidar com casos de hipotermia (aprendemos algumas aulas antes).
Mas sem dúvidas a minha aula preferida é a de Artes. Nela, estamos individualmente dando início a um projeto. Não há muitas regras, mas devemos criar uma série de desenhos, colagens, pinturas e coisas assim feita por nós, que quando juntas, fazem sentido, há uma progressão. Acho que não expliquei muito bem, mas é complicado mesmo. Estava totalmente sem ideia do que fazer. Resolvi então começar a rabiscar em um papel algo mais ou menos assim:
Progress...
Of what?
Maybe my feeling’s progress...
Why?
Because I’ve been here for less than a month and so much happened already. I just can’t bear my feelings alone anymore. Can I share them with you?
Yes.
I’m shaking.
Eu basicamente dialoguei comigo mesma em um pedaço de papel (colocarei uma foto dele no final) e acabei por conceber a ideia da minha série. A minha sequência seria baseada no progresso dos meus sentimentos enquanto estiver aqui. O diálogo parece meio deprimido, mas é como eu estava me sentindo naquele momento.
A partir desse dia, ganhei nas aulas de Artes, um momento terapêutico e reflexivo, onde coloco meus sentimentos para fora de mim. Estou criando um diário. Escrevo e desenho muitas coisas e estou ficando bem satisfeita com os resultados, que além de estéticos, estão provando a melhora dos meus sentimentos.
P.S.: O que eu não quero que os kiwis saibam eu escrevo em português.
Sobre Judith e Alina não tenho muito o que dizer. A primeira tem um senso de humor irônico e cruel (muitas vezes parecido com o meu) e às vezes parece ser a mais jovem da casa. A segunda por mais que irritante às vezes, vem se provando uma grande companheira e amiga. Pelo o que estou vendo, nem todas as irmãs internacionais desenvolvem um laço tão forte quanto o que estou vivendo com Alina. Nós estamos muito amigas e próximas, o que é novo para Judith, que diz nunca ter recebido duas garotas que se dão tão bem (ou mal, quando uma está azucrinando a outra).

Antes, estava relutante sobre morar com uma idosa, mas agora estou vendo o quanto isso é bom: ela tem muito tempo para nós, ou seja, lava as nossas roupas e cozinha que é uma beleza. Eu estou vivendo literalmente na casa de uma avó: aqui só tem delícias todos os dias. O que me lembra que ela faz o melhor bolo de limão que já comi na vida. Fiquei tão viciada naquele bolo que a madame se viu forçada a escondê-lo de mim. É claro que ela afirmou que eu acabei com o bolo, mas um dia, enquanto eu bisbilhotava a dispensa, me deparei com uma caixa cheinha de bolo de limão! Como vingança por aquela traição, é claro que tive que comer tudo o que estava lá. Não comentei nada com ela sobre o furto e tenho certeza que ela não sabe se fui eu, o neto, o filho ou a alemã quem achou o esconderijo, mas tenho certeza que ela sabe que alguém descobriu o lugar, pois Judith partiu para outra técnica: agora ela divide o bolo inteiro em três grandes pedaços e cada uma de nós só pode comer o seu próprio pedaço. O que dizer? Finalmente a madame achou um jeito de me impedir de comer todo o bolo.



Será que eu tô feliz?









segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Detalhes (25/02)

Decidi que a postagem de hoje será diferente. Não vou falar de um evento único, mas sim de um dia inteiro visto sob os meus olhos. Quem sabe assim você não se sente um pouco mais perto de mim?

Todos os dias meu celular toca às 7h40 Monomania, da Clarice Falcão. Todos os dias, sabe-se lá porque, eu acordo um pouco antes.
A primeira coisa a ser feita é me trocar e descer para o café da manhã. No corredor para a escada, rotineiramente sinto cheiro de xampu, pois a Alina só toma banho de manhã. Ela também sempre já está à mesa quando chego e come o mesmo que eu: sucrilhos sem açúcar com leite. Neste período, Judith gosta de deixar a TV ligada e, geralmente, no canal onde podemos ver as olimpíadas de inverno.
Em seguida, subo novamente para terminar de me arrumar: creme no cabelo, protetor solar, pulseiras, anéis e brincos.
Desço para ir embora. No térreo, às 8h20, surge Danielle, que sempre vai à escola conosco. Pego minha lancheira já preenchida por Judith e partimos. Geralmente, sou eu quem fecha o portão da garagem, que é automático e deve ser acionado (aberto ou fechado) de dentro da casa, ou seja: a pessoa que for executar tal tarefa, quando saindo da casa, deve sair correndo e passar por baixo do portão antes que ele feche, te trancando. Para mim, é muita emoção logo cedo.
Judith deixa nós três não na frente da escola, um pouco abaixo. Por chegarmos mais cedo, posso ficar na internet do celular e conversar com brasileiros, já que o horário é propício.
Às 8h35 começa a Form Class. Já comentei o que acontece nela mas nunca como acontece. As mesas são grandes e quadradas, permitindo que mais ou menos dez alunos se sentem em suas laterais. Mas os alunos dessa aula só ocupam duas dessas mesas e a distribuição é mais ou menos assim: em uma estão reunidas todas as garotas kiwis e em outra todos os garotos e a Tchó. Pra quem não sabe, Tchó sou eu. Desde a minha primeira aula naquele ambiente me sento com os garotos. Não porquê quero fazer amizade com eles ou me cansei do sexo feminino; e sim porque as garotas que ocupam a outra mesa me assustam. Não me entenda mal! Elas não fazem caretas para mim, não são grosseiras e realmente não parecem ser más pessoas, mas elas realmente conseguem me manter à distância. E sabe por quê? Porque elas se vestem de modo a parecer que estão esperando ser abordadas de surpresa (só que não tão surpresa assim) por um grupo de paparazzi para, logo em seguida, serem declaradas a mais recente descoberta do mundo das modelos. Se você ainda não entendeu, tentarei ser mais explícita: elas devem no mínimo acordar às 05h00 para conseguirem chegar na escola arrumadas daquele jeito. Tá, não fui muito mais clara, mas acho que deu para entender. E é por isso que eu sento com os garotos, pois eles se vestem normalmente e não parecem tão assustadores.
Depois começam as aulas de verdade. Por exemplo, hoje eu tive aula de Artes em seguida e devo dizer que esta foi a aula mais chata que aquele professor já me deu. Acho que isso se deve ao fato de que ele estava explicando coisas sobre avaliações e trabalhos e notas e blá. Coisas que não interessam a inquilina aqui. Tirando o fato de que ele falava tão rápido que em vários momentos eu não fazia ideia do que fora dito.
Minha próxima aula hoje foi Outdoor Education. Eu troquei Teatro por ela. As pessoas já tinham começado a ensaiar a peça e a professora, que tinha pedido que eu esperasse esse momento, não me deu papel nenhum! Como ser uma árvore estava fora de cogitação, decidi mudar de matéria. Mas não quero falar sobre Outdoor Education agora, quero falar da minha aula de Hospitality.
Essas aulas, quando teóricas, conseguem ser bem entediantes e mentirosas, pois não mostram nem o dedinho do que é a vida dentro daquela cozinha. Hoje, por exemplo, a aula foi prática, o que a meu ver significa muitas coisas: Guerra; Do or Die, Salve-se quem puder, Só os melhores adaptados sobreviverão, O que diabos estou fazendo aqui?, e por aí vai. Hoje não foi exceção.
Um canadense que estava morando no Brasil há alguns anos, Thomas, pediu para ser minha dupla. Até aí tudo bem, pelo menos eu podia falar português e ser entendida. A professora nem tinha terminado de dar algumas instruções e começou. Começou o quê?, você me pergunta. E eu respondo: uma manada de elefantes e rinocerontes entra em disparada, a selva (cozinha) ganha vida e caos. O fuzuê tem início. São pessoas apressadas correndo de um lado para o outro, fazendo mil coisas que para mim nunca existiram e talvez nunca existirão. Olho para minha dupla, que ironicamente retribui o olhar, esperando que eu tenha todas as respostas. Só que não.
Passamos um bom tempo tentando decifrar a receita e mais tempo ainda tentando realiza-la. O que dizer sobre o que houve a seguir? Vejamos a situação por outro ângulo. Suponha que você está na sua aula de culinária, no seu país, falando a sua língua, lendo uma receita que também está na sua primeira língua, fazendo uma comidinha muito simples e fácil porque você vem frequentando esta aula desde que era criança, então tudo é muito conhecido e óbvio. Aí você está nessa pacata aula quando, de repente, algo inusitado acontece: um garoto e uma garota começam a discutir com o tom de voz elevado, em um idioma completamente desconhecido, para em seguida gargalharem em um volume igualmente alto. Foi isso o que aconteceu sob os olhos dos kiwis. O Thomas estava tão perdido quanto eu (se não mais) e várias vezes acabamos por divergir nas opiniões sobre o que deveria ser feito. Só que estávamos tão nervosos no meio daquela correria que começamos a nos exaltar e a morrer de rir. No final, fomos uns dos últimos a terminar a receita, que era panquecas doces (eu nem sabia o que estava fazendo quando começamos a cozinhar) e até que ficaram boas, embora a aparência tenha deixado a desejar.

 Podemos ter deixado uma impressão meio assustadora para todos os alunos naquela classe, mas eu pelo menos, me diverti muito naquela aula, onde vivi sentimentos tais como: ódio, pânico, alegria, incompetência e semelhança.  

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Caiacando pelo mundo! (16/02)

Hoje é domingo e fomos andar de caiaque!
Mas falemos primeiro sobre ontem.
No sábado o evento do dia foi um churrasco em um parque perto de casa. Nele, só foram os alunos internacionais e acredite, havia muitos deles lá.
Tem uma parte minha que ainda não se conformou por eu estar tentando sair da Betina brasileira. Foi essa parte que me fez chegar ao churrasco, sentar e conversar por uns dez, quinze minutos, se encher e querer voltar para casa. Porém, como sempre tem um porém, a Betina neozelandesa estava encarnada em outra pessoa: Alina. Nós fomos ao churrasco a pé e deveríamos fazer o mesmo na volta e juntas. Ela não parecia estar muito mais animada do que eu, mas não quis ir embora. Então fiquei.
O tempo foi passando e as coisas começaram a ficar interessantes. Estava conversando mais e me divertindo mais. Vi o vídeo de uma vaca parindo e não foi exatamente uma coisa bonita e mágica. Foi nojento! O bezerro estava virado ao contrário na barriga da mãe e iria matar ambos se não houvesse intervenção, que foi justamente o que eu vi: dois homens puxando as patas do bicho pra fora da vaca com tudo. É. Nojento.
Quando eu mais estava me divertindo, tivemos que ir embora, pois já estava muito escuro e Judith não queria que chegássemos depois das nove.
Agora vamos ao que (me) interessa: caiaques everywhere!
Já tinha combinado há um tempo com Trees e Danielle que iríamos andas de caiaque neste fim de semana. E foi o que aconteceu!
Acordei mais cedo que o necessário hoje, lá pelas oito. E por volta das onze, já estava na casa da Trees novamente, onde encontrei Danielle.
Empacotamos algumas coisas: almoço, protetor solar e garrafas d’água e partimos!
Utilizei o mesmo caiaque que a última vez, um verde, só que desta vez estava muito mais confiante e não comecei a berrar por socorro quando entrei na água.
Tínhamos como objetivo sair do rio e desaguarmos no mar, para tentar ver golfinhos.
No começo estava tudo certo, foi só ficarmos mais próximas do mar que as coisas começaram a piorar. Antes, não havia ondas ou vento que pudessem atrapalhar nossa jornada, mas agora, com a água salgada se juntando e tomando o lugar da doce (mesmo não estando no mar), começaram a vir à tona alguns obstáculos. Passamos a ter de enfrentar o vento e as ondas, que estavam contra nós.
Se você pensa que umas ondinhas e uma brisa caminhando para o lado oposto ao seu não fazem diferença de cima de um caiaque, vá aprender a navegar na mesma situação. Tudo ficou mais difícil! A cada braçada que dávamos andávamos menos, o barco pulava com as ondas e insistia em tentar virar. O remo começou a pesar em minhas mãos e cada movimento exigia mais força.
Logo meus braços já estavam pedindo arrego e ainda nada de mar. Trees apontou uma pequena ilha no horizonte e disse que pararíamos lá para almoçar. Meu queixo caiu. Naquele momento, a tal ilha era só um pontinho perdido na distância. Partiu morrer, pensei.
Às vezes, mesmo se estiver morrendo, mas se tiver enfiado uma coisa na minha cabeça de tal maneira, vou ignorar todo o resto e deixar minha teimosia reinar. Foi o que aconteceu: fingi que a dor em meus braços não estava lá e comecei a remar incessantemente.
De remada em remada, respiração por respiração, onda por onda, finalmente cheguei à benedita ilha, e fui a primeira! Rá! A novata aqui não é pouca coisa, não!
E meus braços nem estavam doendo tanto!
A primeira coisa que fizemos foi dar uma volta na ilha a pé. Foi rapidinho e ela era linda. Cheia de conchas no chão e algas na praia. Água transparente e fresquinha, além de ser arborizada. Tínhamos descoberto um pequeno paraíso!
Dada a volta, almoçamos. Trouxe um wrap que eu mesma fiz, por isso que nele só tinha queijo, alface e sal. Terminado, deitei nas pedras e tomei um pouco de sol. Esse momento foi mágico.
Ali, deitada sob o Sol, fechei meus olhos. Pude ouvir as ondas quebrando na areia, as gaivotas cantando no céu e a mim mesma. Percebi ali o quanto estava feliz. Sentia uma energia enorme entrando e saindo de mim, parecia estar levando embora todos meus problemas, tristezas e agonias. Achei que poderia ficar lá para sempre. Lá, me senti em paz. Havia paz me invadindo e paz ao meu redor. Estava leve, quase flutuando; em estado meditativo. Me senti eterna, me senti feliz, me senti em paz.
Achei que a volta para a casa da Trees seria mais fácil, pois estaríamos a favor do vento e das ondas, mas não foi bem assim. Naquela situação, o meu caiaque acabava se entortando toda hora, não consegui mantê-lo no sentido certo e meus braços estavam doendo mais.
Em vários momentos tive certeza de que não estava saindo do lugar não importa o quanto remasse. Aquilo me deixou agoniada e eu quase saltei para fora do caiaque para puxá-lo, o que certamente seria mais fácil.
Horas mais tarde (sim, horas. Na ida demoramos uma hora para chegar à ilha, na volta foram bem mais) finalmente alcançamos a água doce, sem vento e sem ondas para atrapalhar a nossa vida.
Para encerrar bem o dia, caímos na piscina, onde relaxamos por um bom tempo.
Agora são oito e meia da noite e meus braços começaram a dar indícios de que amanhã eles não farão nada mais do que ficar pendurados e doendo. Pelamordedeus, tá começando a doer demais!
Apesar da dor que me virá, tenho certeza de que nunca vou me arrepender de ter mostrado a mim mesma que minha convicção (e teimosia) vai além da minha força e pode me trazer a lugares maravilhosos e a aventuras inesquecíveis.
O ser com a camisa na cabeça sou eu. Comecávamos a nossa jornada.
Dando a volta na ilha.
Trees, Danielle, eu.
Betina feliz.
Somos sereias.
Eu e Danielle.
Euu

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Cavalos, finalmente! - parte II

Continuando...
Finalmente pudemos selar nossos cavalos. Adivinha? Tivemos que esperar mais um tempão por sabe-se lá o que.
Já em cima dos animais, fomos em direção à parte mais divertida do dia: o cross! O campo de cross deles é imenso! Nem sei quando termina. São colinas e colinas que não acabam mais, todas verdejantes e com vários obstáculos.
Para a minha alegria, pudemos dar uns pulinhos. Lily saltou muito bem, embora pude sentir ela tentando se esquivar de um obstáculo embaixo de mim. Ela é bem rapidinha!
Também tivemos a chance de entrar em um lago com os cavalos! Um lago tão fundo que tínhamos que erguer nossas pernas a cima do pescoço dos cavalos para não nos molharmos, foi o máximo! Os cavalos entraram tão de boa na água, quero só ver o dia em que o Chocolate vai fazer alguma coisa assim.
Na volta às cocheiras, pudemos fazer algo que eu amo: sair galopando pelas colinas! Foi maravilhoso. Amo sentir a liberdade acariciando meu rosto e a explosão de energia que é o cavalo embaixo de mim. São nesses momentos que as batidas do meu coração passam a ter o mesmo ritmo que o galope que me faz voar. É mágico.
Infelizmente, assim que voltamos tivemos que ir embora, pois o ônibus já estava a nossa espera.
Gostei muito do dia, foi muito bom poder matar a saudades desse mundo que tanto amo. Porém, a impressão que tive é de que lá teremos mais diversão do que treino, o que é bom, mas não é o que eu nem o que as outras meninas querem, queremos melhorar! A atleta dentro de mim não tira férias. Mas ainda está muito cedo para tomar qualquer atitude, então voltarei lá mais umas duas, três vezes e ver como as coisas estarão.

Mas não há nada, nada nesse mundo que se compare ao sentimento que nasce em mim quando estou em cima de um cavalo.
O campo de cross é gigante!
Analisando o salto...
E pulamos!