Decidi que a postagem de hoje será diferente. Não
vou falar de um evento único, mas sim de um dia inteiro visto sob os meus
olhos. Quem sabe assim você não se sente um pouco mais perto de mim?
Todos os dias meu celular toca às 7h40 Monomania,
da Clarice Falcão. Todos os dias, sabe-se lá porque, eu acordo um pouco antes.
A primeira coisa a ser feita é me trocar e descer
para o café da manhã. No corredor para a escada, rotineiramente sinto cheiro de
xampu, pois a Alina só toma banho de manhã. Ela também sempre já está à mesa
quando chego e come o mesmo que eu: sucrilhos sem açúcar com leite. Neste
período, Judith gosta de deixar a TV ligada e, geralmente, no canal onde
podemos ver as olimpíadas de inverno.
Em seguida, subo novamente para terminar de me
arrumar: creme no cabelo, protetor solar, pulseiras, anéis e brincos.
Desço para ir embora. No térreo, às 8h20, surge
Danielle, que sempre vai à escola conosco. Pego minha lancheira já preenchida por
Judith e partimos. Geralmente, sou eu quem fecha o portão da garagem, que é
automático e deve ser acionado (aberto ou fechado) de dentro da casa, ou seja:
a pessoa que for executar tal tarefa, quando saindo da casa, deve sair correndo
e passar por baixo do portão antes que ele feche, te trancando. Para mim, é
muita emoção logo cedo.
Judith deixa nós três não na frente da escola, um
pouco abaixo. Por chegarmos mais cedo, posso ficar na internet do celular e
conversar com brasileiros, já que o horário é propício.
Às 8h35 começa a Form Class. Já comentei o que acontece nela mas nunca como
acontece. As mesas são grandes e quadradas, permitindo que mais ou menos dez
alunos se sentem em suas laterais. Mas os alunos dessa aula só ocupam duas
dessas mesas e a distribuição é mais ou menos assim: em uma estão reunidas
todas as garotas kiwis e em outra todos os garotos e a Tchó. Pra quem não sabe,
Tchó sou eu. Desde a minha primeira aula naquele ambiente me sento com os
garotos. Não porquê quero fazer amizade com eles ou me cansei do sexo feminino;
e sim porque as garotas que ocupam a outra mesa me assustam. Não me entenda
mal! Elas não fazem caretas para mim, não são grosseiras e realmente não parecem
ser más pessoas, mas elas realmente conseguem me manter à distância. E sabe por
quê? Porque elas se vestem de modo a parecer que estão esperando ser abordadas
de surpresa (só que não tão surpresa assim) por um grupo de paparazzi para,
logo em seguida, serem declaradas a mais recente descoberta do mundo das
modelos. Se você ainda não entendeu, tentarei ser mais explícita: elas devem no
mínimo acordar às 05h00 para conseguirem chegar na escola arrumadas daquele
jeito. Tá, não fui muito mais clara, mas acho que deu para entender. E é por
isso que eu sento com os garotos, pois eles se vestem normalmente e não parecem
tão assustadores.
Depois começam as aulas de verdade. Por exemplo,
hoje eu tive aula de Artes em seguida e devo dizer que esta foi a aula mais
chata que aquele professor já me deu. Acho que isso se deve ao fato de que ele estava
explicando coisas sobre avaliações e trabalhos e notas e blá. Coisas que não
interessam a inquilina aqui. Tirando o fato de que ele falava tão rápido que em
vários momentos eu não fazia ideia do que fora dito.
Minha próxima aula hoje foi Outdoor Education. Eu troquei Teatro por ela. As pessoas já tinham
começado a ensaiar a peça e a professora, que tinha pedido que eu esperasse
esse momento, não me deu papel nenhum! Como ser uma árvore estava fora de
cogitação, decidi mudar de matéria. Mas não quero falar sobre Outdoor Education agora, quero falar da
minha aula de Hospitality.
Essas aulas, quando teóricas, conseguem ser bem
entediantes e mentirosas, pois não mostram nem o dedinho do que é a vida dentro
daquela cozinha. Hoje, por exemplo, a aula foi prática, o que a meu ver
significa muitas coisas: Guerra; Do or Die, Salve-se quem puder, Só os melhores
adaptados sobreviverão, O que diabos estou fazendo aqui?, e por aí vai. Hoje
não foi exceção.
Um canadense que estava morando no Brasil há
alguns anos, Thomas, pediu para ser minha dupla. Até aí tudo bem, pelo menos eu
podia falar português e ser entendida. A professora nem tinha terminado de dar
algumas instruções e começou. Começou o quê?, você me pergunta. E eu respondo:
uma manada de elefantes e rinocerontes entra em disparada, a selva (cozinha)
ganha vida e caos. O fuzuê tem início. São pessoas apressadas correndo de um
lado para o outro, fazendo mil coisas que para mim nunca existiram e talvez
nunca existirão. Olho para minha dupla, que ironicamente retribui o olhar,
esperando que eu tenha todas as respostas. Só que não.
Passamos um bom tempo tentando decifrar a receita
e mais tempo ainda tentando realiza-la. O que dizer sobre o que houve a seguir?
Vejamos a situação por outro ângulo. Suponha que você está na sua aula de
culinária, no seu país, falando a sua língua, lendo uma receita que também está
na sua primeira língua, fazendo uma comidinha muito simples e fácil porque você
vem frequentando esta aula desde que era criança, então tudo é muito conhecido
e óbvio. Aí você está nessa pacata aula quando, de repente, algo inusitado
acontece: um garoto e uma garota começam a discutir com o tom de voz elevado,
em um idioma completamente desconhecido, para em seguida gargalharem em um
volume igualmente alto. Foi isso o que aconteceu sob os olhos dos kiwis. O
Thomas estava tão perdido quanto eu (se não mais) e várias vezes acabamos por
divergir nas opiniões sobre o que deveria ser feito. Só que estávamos tão
nervosos no meio daquela correria que começamos a nos exaltar e a morrer de
rir. No final, fomos uns dos últimos a terminar a receita, que era panquecas
doces (eu nem sabia o que estava fazendo quando começamos a cozinhar) e até que
ficaram boas, embora a aparência tenha deixado a desejar.
Podemos ter
deixado uma impressão meio assustadora para todos os alunos naquela classe, mas
eu pelo menos, me diverti muito naquela aula, onde vivi sentimentos tais como:
ódio, pânico, alegria, incompetência e semelhança.
Loirinha Querida, sua descrição da aula de culinária está fantástica. Uma delícia de se ler. Imagino vocês dois perdidinhos da Silva...
ResponderExcluirUm beijo,
Daniel