quarta-feira, 12 de março de 2014

Coisas de intercambista (11/03)

Aqui estou eu, vivendo como kiwi.
Não consegui pensar em uma boa introdução para este post então irei direto ao assunto: aprendi que é possível gostar de fazer algumas coisas se elas são realizadas de melhores maneiras. Por exemplo: aprendi que arrumar a cama pode não ser tão trabalhoso e exaustivo quando só se tem um tecido para arrumar. Lavar a louça pode não ser tão ruim quando se torna um momento em família, onde conversamos e damos muitas risadas (com direito a perseguições que podem variar: Judith atrás de Alina, Alina atrás de mim ou eu correndo atrás dela). Voltar para casa a pé também pode se tornar mais divertido quando usamos os 40 minutos de caminhada para usufruir da companhia de alguém querido. Também é muito mais gratificante saber que ao andar na rua não encontrarei comentários muito desagradáveis vindos dos motoristas. Aqui, posso andar de saia sem temer ouvir algo que não queira, o que definitivamente não acontece quando estou no Brasil. Esse fato me dá segurança e mais amor por estas ilhas.
Também estou vivendo a péssima noção que os kiwis têm sobre o Brasil. Muitos ficaram surpresos por eu ser uma brasileira tão branquela, me confundindo várias vezes como uma alemã. Outros, em plena aula de Geografia (uma brasileira me contou), perguntaram se o Brasil fica na Europa. Quando receberam a resposta queriam saber agora se falamos “brasileiro” e logo em seguida perguntaram se Portugal fica no Brasil porque não fazia o menor sentido dois países distintos falarem a mesma língua. Porque só kiwis falam inglês.
Esses dias, comecei a fazer uma lista de coisas que todo (ou a maioria) intercambista acaba passando por (acho que esse “por”, no lugar que o coloquei, acaba soando como se eu estivesse falando inglês. Infelizmente não me vem à cabeça outra maneira de usar tal palavra então manterei meu português iglesado), mais cedo ou mais tarde. Aqui vão os itens que tenho por enquanto:
·        Desapego- aprenda a se desapegar do que deixou para trás (família, amigos, objetos, animais) e ame o que está por vir e o que está acontecendo agora;
·        Rir sem motivo- se você for a um país que não fala sua língua nativa, acredite, haverá momentos em que todos começarão a rir loucamente quando você simplesmente não entendeu o motivo e não quer ser a única pessoa da roda que não está gargalhando;
·        Concordar com algo sem saber o que foi dito- você já pediu uma vez para repetirem algo, continua sem entender bulhufas e está com vergonha de pedir para repetirem de novo;

Gostaria de fazer um P.S. agora. Por tanto, P.S.: Um ciclone tropical está vindo em direção à Nova Zelândia e deverá chegar no fim de semana (hoje é quarta). Por tanto, se eu morrer, quero que todos saibam que eu sei que vocês sentirão muito a minha falta. Mas não se preocupem: podem deixar que irei puxar o pé de vocês à noite.

Agora um momento romântico, meloso e cândido, por tanto, se você não gosta desse tipo de coisa, pode mudar de página. Mas eu sei que a pessoa a quem esse momento é destinado continuará a ler.
Queria muito agradecer uma pessoa muito especial que mais do que ninguém me ajudou a tornar este intercâmbio possível: meu papai. Agora falarei diretamente com ele, mas sinta-se à vontade para usufruir deste sentimento.
Papai, acho que nunca serei capaz de te agradecer devidamente por tudo o que você fez por mim. Durante todos os meus 18 anos, você sempre teve uma participação muito especial em me ajudar a tornar meus sonhos em realidade. Você sempre acreditou neles e sempre me guiou à direção certa, mesmo quando eu estava relutante. Você sempre me ajudou a acreditar em mim mesma, a procurar os melhores caminhos e a seguir o que me faz sentido. Você vem me ajudando a chegar a mim mesma.
 Sou imensamente grata por tudo o que você pôde me proporcionar e nunca esquecerei nenhuma dessas oportunidades; sejam elas as de ouvir bons conselhos, enxugar lágrimas, dar risadas, pegar estrada, bater altos papos sobre tudo o que quisermos, usufruir da companhia do outro e acima de tudo, reforçar esse laço entre pai e filha tão importante e especial que nós temos.
Queria te tornar o pai mais feliz do mundo, pois você vem me fazendo a filha mais feliz que existe. Sempre lhe serei grata por absolutamente tudo e só lamento nunca conseguir te retribuir com algo à altura, mas continuarei tentando.

Papis, mais do que nunca, estou com saudades. 


Um comentário:

  1. Loirinha,
    Assim não vale. Eu estava tranquilo aqui, esperando um voo no aeroporto de Congonhas. Feliz por conseguir ler, com calma, o seu blog. Você havia me dito que tinha publicado algo, mas não disse nada sobre o que era esse algo. Com uma pera na mão eu fui descendo por seu blog, me deliciando com seus aprendizados, com seu humor e com a forma linda como nos brinda com tudo isso. Quando de repente veio a parte “melosa”. Me pegou de surpresa. Simplesmente não consegui mais engolir o pedaço de pera que tinha na boca. Meus olhos inundaram embaçando tudo. E pude aproveitar de uma das boas coisas de se aproximar dos 50 anos, que é não estar nem aí para o que os outros vão pensar, deixando as lágrimas rolarem em profusão. Aposto que se alguém reparar no grandão se esvaindo em lágrimas, nunca imaginará que elas são da maior alegria do mundo. Alegria que não cabe no coração, alegria que faz o dito cujo acelerar e sai correndo como lágrimas. Que bom que elas existem! Hoje vou dormir feliz, com o coração em profunda harmonia e paz. Amanhã, quando por ventura, vier a me sentir desafortunado, terei este pequeno tesouro, que você me deu, para me socorrer. Será o meu elixir secreto. Se alguém me vir, assim do nada, abrir um sorriso iluminado, pode ter certeza que foi meu coração que se lembrou de você.
    Com muito amor, do seu paps Dani
    ps Loirinha, eu sei que matemática não é a sua paixão. Mas preciso lhe falar de um reparo na sua aritmética. Preste bem atenção. Saldo de uma dívida é o resultado de uma subtração. Pegue o que foi emprestado, retire o que já foi pago, isso dá o saldo da dívida. Por exemplo: você pegou emprestado 10, devolveu 3, ainda deve 7. No seu blog você lamenta não conseguir me retribuir a altura. Tá vendo, o erro de matemática. Você já me deu muito, muito, muito mais do que imagino ter lhe dado. Assim, não há dívida alguma, ok? Te amo.

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