Está começando a ficar difícil imaginar que em menos
de cinco meses, terei que me despedir deste universo que estou amando habitar.
Agora, simplesmente não entra na minha cabeça que um dia não verei mais essas
pessoas, que um dia terei que dizer ‘Adeus’ e partir. Não consigo mais ver
minha vida sem tudo e todos pelos quais me apaixonei em tão pouco tempo. Eu amo
simplesmente todas as pessoas que conheci (talvez a professora de Biologia nem
tanto) e não suporto a ideia de que terei que ir para tão longe delas e sabe-se
lá por quanto tempo vou ficar sem vê-las. Eu não sei como vou conseguir
continuar minha vida sem todos. Pode parecer que estou sendo dramática, mas não
é verdade. Em toda a minha vida, nunca gostei tanto de tantas pessoas tão
rapidamente! Nunca gostei tanto a ponto de não conseguir mais imaginar uma
rotina sem elas, e considerando que as conheço há menos de três meses, é muito
amor. Não sei o que vai acontecer comigo quando voltar. Acho que uma parte
minha vai estar feliz por rever entes queridos, mas outra grande parte estará
destruída e arrasada. Acho que para sempre vou deixar um pedaço meu aqui, nesse
par de ilhas. Vou precisar de muita força para retomar minha vida brasileira.
Sim, sim, sei que preciso aproveitar enquanto estou aqui e não ficar pensando
no futuro, mas quando se está predestinado a fazer algo que simplesmente não
faz mais sentido, deixar de pensar no que vai acontecer se torna uma tarefa
árdua. Como disse anteriormente, que estes seis meses sejam eternos.
Bom, agora vamos ao que interessa: a minha vida! Não
sou convencida, mas você simplesmente não estaria aqui se não tivesse o mínimo de
interesse pela minha vida.
Vou falar um pouco sobre o tráfico de Kerikeri, que é
bem interessante, pois se baseia principalmente nos horários da minha escola!
Por exemplo, só tem trânsito pesado por aqui no começo do dia, quando as aulas estão
prestes a começar e no fim do dia, que é quando as aulas acabam! Mágico, não? Outra
coisa que é muito interessante, além do fato de que os kiwis adoram andar
descalços, é a autonomia que eles têm desde cedo: vejo crianças de seis, cinco
anos indo para a escola sozinhas. Hoje, tive que tomar um ônibus para ir ao
lago (não estou a fim de falar sobre esse episódio). Detalhe importante: aqui
não tem transporte público! No fim do dia, os alunos podem escolher (muitas
vezes gratuitamente) um dentre uns dez ônibus que vão para todos os cantos. Mas
o negócio é que o ônibus que peguei estava entupido de crianças e como estava cansada
demais para me importar com a baderna e o barulho, reparei em outras coisas:
novamente, vi crianças de uns cinco, talvez até quatro anos. Fiz uma pequena
comparação com o Brasil: lá, os transportes escolares muitas vezes são aquelas
vans, onde são necessários dois adultos, um para dirigir e outro para tomar
conta dos passageiros. Aqui, em um ônibus gigante, só é necessário um adulto
para dirigi-lo e nenhum para lidar com as crianças, que sabem onde devem
descer, quando devem descer e como se portar. Ao que tudo indica, os kiwis
confiam muito mais em suas crianças e estas são muito melhores educadas que as
brasileiras.
Hoje eu estava conversando com Alina e concluímos a
mesma coisa: nós duas temos a impressão de que nosso inglês está piorando!
Começo a ter dúvidas sobre a língua que antes não tinha, chega um dado ponto do
dia que simplesmente não me sinto mais capaz de falar inglês, tudo acaba saindo
errado. São nesses momentos que digo: “Vou aprender chinês, parece muito mais
simples”. De verdade, nunca achei inglês tão difícil quanto estou achando no
auge dos meus dois meses em Kerikeri. Às vezes, falo umas coisas que mais
tarde, quando paro para pensar, não acredito que consegui dizer algo tão errado.
Coisas que antes pareciam tão óbvias estão começando a gerar dúvidas na minha
cachola. Quero só ver como vai estar a minha situação em julho. Porém, como
sempre tem um porém, lembro de que a professora de inglês, Ms. Hardcastle, um
dia nos disse que tudo isso é normal. Ela falou que no começo, só estamos
preocupados em falar, falar e falar. Mas depois, conforme o tempo vai passando,
nosso cérebro começa a se preocupar em falar as coisas da maneira correta, o
que explica a exaustão, as dúvidas e toda a confusão pela qual estamos
passando. Me pergunto quando vamos passar desta fase analfabeta.
Agora, quero compartilhar algo que aconteceu há duas
semanas, numa sexta-feira com cavalos. Estava de tarde e nós só iríamos fazer
um passeio pelas colinas verdejantes. Como não havíamos planejado nada
mirabolante, decidimos que não precisaríamos de sela e fomos passear só de
cabresto (e como você é um(a) bom(a) leitor(a), lembra direitinho o que
cabresto é). Lá estávamos nós, passeando todas felizes e serelepes quando Trees
e Julia, para variar, resolvem sair galopando. Os cavalos delas são muito
bonzinhos e nunca fazem mais esforço do que o necessário, se é que você me
entende. Alena e eu, ao vermos elas galopando, quisermos ir junto. Mas como
estamos acostumadas com professores rígidos e nunca faríamos algo sem a
permissão do responsável, fomos perguntar se podíamos fazer o mesmo. Nos
falaram que sim, mas que deveríamos esperar eles chegarem até um local, assim,
galoparíamos até eles. Como as duas boas meninas que nós somos, esperamos.
Quando o grupo finalmente chegou ao ponto combinado, tocamos nossas éguas. E
foi aí que a coisa não saiu como o planejado (o que costuma acontecer quando se
anda a cavalo). As nossas éguas resolveram que fazer o mínimo esforço
necessário era para os fracos, elas queriam dar o seu melhor. E VUM! Antes que
pudesse perceber, Lily estava voando. Ela estava completamente na horizontal,
como fazem os cavalos de corrida e indo tão rápido que a paisagem ao meu redor
não passava de um borrão. O vento zunia em meus ouvidos tão alto que eu não
ouvia nada além da respiração e dos cascos de Lily encontrando o chão em uma
velocidade absurda. Estaria tudo certo se não fosse por dois detalhes:
Primeiro: eu estava sem sela e, para quem não sabe, o dorso de um cavalo pode
ser muito escorregadio; Segundo: eu estava sem bridão, ou seja, sem freio. No
momento, eu não sabia no que eu deveria me concentrar mais: em me manter em
cima do cavalo, que estava se mexendo rápido de mais, ou se eu devia tentar
pará-lo. Puxar as rédeas foi completamente em vão. Elas não estavam ligadas à
boca da Lily e não surtiam efeito nenhum, não importava o quanto eu puxava.
Além do mais, a crina da égua estava tão comprida que se juntava às rédeas e
acabavam por piorar o meu contato com o focinho de Lily. Resolvi usar outra
técnica: curvar o cavalo. Quando um cavalo dispara, é muito útil você “dobrar”
o pescoço dele e o fazer andar em pequenos círculos, porque aí ele acaba
parando. Meu plano começou a dar certo e teria dado se duas coisas não tivessem
me distraído: Um, nós estávamos nos aproximando (em super alta velocidade) do
resto do grupo, o que me deu esperanças de que ela pararia e acabou por me
distrair da minha tarefa. Dois, como eu começara a reduzir, a égua de Alena me
alcançou, o que fez Lily resistir mais aos meus comandos e acelerar novamente.
Nós ultrapassamos o grupo e as éguas pareciam não querer parar nunca. Foi então
que eu vi. Vi algo que poderia ser tanto a minha salvação quanto a minha
sentença. Havia uma cerca dividindo o pasto. Uma cerca alta com um portão
fechado mais alto ainda e as éguas estavam indo para o portão. Algumas coisas
cruzaram minha mente: Lily poderia parar no portão, e se isso acontecesse
bruscamente, eu seria jogada para o chão. Ou, a hipótese que mais me assustou:
Lily poderia tentar saltar o portão, e se isso acontecesse com ou sem sucesso,
as chances de eu parar estirada no chão eram grandes. Como não me decidi entre
rir ou chorar, comecei a repetir para mim mesma, mas esperando que Lily me
ouvisse: “Por favor, pare no portão. Por favor, pare no portão”. E o portão se
aproximando. Cada vez mais rápido. Cada vez mais perto. Como a égua não reduzia
proporcionalmente à distância do portão, cogitei me jogar. Mas não o fiz. Eu
não sabia como fazer e tinha medo. Então resolvi aguardar pela decisão e pelo
bom senso da égua, já que a minha opinião não importava. Portão cada vez mais
perto. Cada vez mais perto. Mais perto. Perto. E chegou. Finalmente chegamos ao
portão. E finalmente Lily parou. Ela fez uma curva rente ao portão e súbita.
Como o previsto, fui jogada para frente. Como o imprevisto, consegui me agarrar
no pescoço da égua e me manter longe do chão. Ao me recuperar, olhei para
Alena, que também ainda estava em cima. Ela me olhou de volta e começamos a
gargalhar. Rimos, rimos e rimos até que os outros, exaltados, chegaram até nós
com as bocas abertas, soltando exclamações e interrogações. Na hora, não
importou. Estávamos felizes, pois mesmo sem trocar uma palavra, sabíamos que a
última coisa que imaginávamos era que sobreviveríamos intactas. Falaram que
nunca viram alguém ir tão rápido e ainda por cima sem sela. Eu também não. E se
eu tivesse visto, nunca teria imaginado que não cairia, que sobreviveria da
maneira que fiz. Também nunca senti tanto a falta de bridões como senti naquele
momento. Naquela hora, senti medo, mas não acho que entrei em pânico, pois se
tivesse, provavelmente esta história teria um final diferente e dolorido. Mas é
por isso que gosto de cavalos, porque por mais domados que eles sejam, sempre
dão um jeito de expressar sua natureza, sua sede por liberdade. E eles
compartilham esses momentos com quem estiver olhando ou em cima de seu lombo.
Naquela sexta-feira, Lily me emprestou sua força, sua vontade, e sua liberdade,
para juntas, como uma, voarmos.
P.S.: Tinha que ter um final cândido e romântico,
afinal, sou eu quem está escrevendo tudo isso.
Rsrsrsss... Adorei a sua aventura com a Lily. Consegui visualizar a cena e dei boas gargalhadas. Que delícia! Bjs
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