segunda-feira, 24 de março de 2014

Sem criatividade para títulos (24/03)

Está começando a ficar difícil imaginar que em menos de cinco meses, terei que me despedir deste universo que estou amando habitar. Agora, simplesmente não entra na minha cabeça que um dia não verei mais essas pessoas, que um dia terei que dizer ‘Adeus’ e partir. Não consigo mais ver minha vida sem tudo e todos pelos quais me apaixonei em tão pouco tempo. Eu amo simplesmente todas as pessoas que conheci (talvez a professora de Biologia nem tanto) e não suporto a ideia de que terei que ir para tão longe delas e sabe-se lá por quanto tempo vou ficar sem vê-las. Eu não sei como vou conseguir continuar minha vida sem todos. Pode parecer que estou sendo dramática, mas não é verdade. Em toda a minha vida, nunca gostei tanto de tantas pessoas tão rapidamente! Nunca gostei tanto a ponto de não conseguir mais imaginar uma rotina sem elas, e considerando que as conheço há menos de três meses, é muito amor. Não sei o que vai acontecer comigo quando voltar. Acho que uma parte minha vai estar feliz por rever entes queridos, mas outra grande parte estará destruída e arrasada. Acho que para sempre vou deixar um pedaço meu aqui, nesse par de ilhas. Vou precisar de muita força para retomar minha vida brasileira. Sim, sim, sei que preciso aproveitar enquanto estou aqui e não ficar pensando no futuro, mas quando se está predestinado a fazer algo que simplesmente não faz mais sentido, deixar de pensar no que vai acontecer se torna uma tarefa árdua. Como disse anteriormente, que estes seis meses sejam eternos.
Bom, agora vamos ao que interessa: a minha vida! Não sou convencida, mas você simplesmente não estaria aqui se não tivesse o mínimo de interesse pela minha vida.
Vou falar um pouco sobre o tráfico de Kerikeri, que é bem interessante, pois se baseia principalmente nos horários da minha escola! Por exemplo, só tem trânsito pesado por aqui no começo do dia, quando as aulas estão prestes a começar e no fim do dia, que é quando as aulas acabam! Mágico, não? Outra coisa que é muito interessante, além do fato de que os kiwis adoram andar descalços, é a autonomia que eles têm desde cedo: vejo crianças de seis, cinco anos indo para a escola sozinhas. Hoje, tive que tomar um ônibus para ir ao lago (não estou a fim de falar sobre esse episódio). Detalhe importante: aqui não tem transporte público! No fim do dia, os alunos podem escolher (muitas vezes gratuitamente) um dentre uns dez ônibus que vão para todos os cantos. Mas o negócio é que o ônibus que peguei estava entupido de crianças e como estava cansada demais para me importar com a baderna e o barulho, reparei em outras coisas: novamente, vi crianças de uns cinco, talvez até quatro anos. Fiz uma pequena comparação com o Brasil: lá, os transportes escolares muitas vezes são aquelas vans, onde são necessários dois adultos, um para dirigir e outro para tomar conta dos passageiros. Aqui, em um ônibus gigante, só é necessário um adulto para dirigi-lo e nenhum para lidar com as crianças, que sabem onde devem descer, quando devem descer e como se portar. Ao que tudo indica, os kiwis confiam muito mais em suas crianças e estas são muito melhores educadas que as brasileiras.
Hoje eu estava conversando com Alina e concluímos a mesma coisa: nós duas temos a impressão de que nosso inglês está piorando! Começo a ter dúvidas sobre a língua que antes não tinha, chega um dado ponto do dia que simplesmente não me sinto mais capaz de falar inglês, tudo acaba saindo errado. São nesses momentos que digo: “Vou aprender chinês, parece muito mais simples”. De verdade, nunca achei inglês tão difícil quanto estou achando no auge dos meus dois meses em Kerikeri. Às vezes, falo umas coisas que mais tarde, quando paro para pensar, não acredito que consegui dizer algo tão errado. Coisas que antes pareciam tão óbvias estão começando a gerar dúvidas na minha cachola. Quero só ver como vai estar a minha situação em julho. Porém, como sempre tem um porém, lembro de que a professora de inglês, Ms. Hardcastle, um dia nos disse que tudo isso é normal. Ela falou que no começo, só estamos preocupados em falar, falar e falar. Mas depois, conforme o tempo vai passando, nosso cérebro começa a se preocupar em falar as coisas da maneira correta, o que explica a exaustão, as dúvidas e toda a confusão pela qual estamos passando. Me pergunto quando vamos passar desta fase analfabeta.
Agora, quero compartilhar algo que aconteceu há duas semanas, numa sexta-feira com cavalos. Estava de tarde e nós só iríamos fazer um passeio pelas colinas verdejantes. Como não havíamos planejado nada mirabolante, decidimos que não precisaríamos de sela e fomos passear só de cabresto (e como você é um(a) bom(a) leitor(a), lembra direitinho o que cabresto é). Lá estávamos nós, passeando todas felizes e serelepes quando Trees e Julia, para variar, resolvem sair galopando. Os cavalos delas são muito bonzinhos e nunca fazem mais esforço do que o necessário, se é que você me entende. Alena e eu, ao vermos elas galopando, quisermos ir junto. Mas como estamos acostumadas com professores rígidos e nunca faríamos algo sem a permissão do responsável, fomos perguntar se podíamos fazer o mesmo. Nos falaram que sim, mas que deveríamos esperar eles chegarem até um local, assim, galoparíamos até eles. Como as duas boas meninas que nós somos, esperamos. Quando o grupo finalmente chegou ao ponto combinado, tocamos nossas éguas. E foi aí que a coisa não saiu como o planejado (o que costuma acontecer quando se anda a cavalo). As nossas éguas resolveram que fazer o mínimo esforço necessário era para os fracos, elas queriam dar o seu melhor. E VUM! Antes que pudesse perceber, Lily estava voando. Ela estava completamente na horizontal, como fazem os cavalos de corrida e indo tão rápido que a paisagem ao meu redor não passava de um borrão. O vento zunia em meus ouvidos tão alto que eu não ouvia nada além da respiração e dos cascos de Lily encontrando o chão em uma velocidade absurda. Estaria tudo certo se não fosse por dois detalhes: Primeiro: eu estava sem sela e, para quem não sabe, o dorso de um cavalo pode ser muito escorregadio; Segundo: eu estava sem bridão, ou seja, sem freio. No momento, eu não sabia no que eu deveria me concentrar mais: em me manter em cima do cavalo, que estava se mexendo rápido de mais, ou se eu devia tentar pará-lo. Puxar as rédeas foi completamente em vão. Elas não estavam ligadas à boca da Lily e não surtiam efeito nenhum, não importava o quanto eu puxava. Além do mais, a crina da égua estava tão comprida que se juntava às rédeas e acabavam por piorar o meu contato com o focinho de Lily. Resolvi usar outra técnica: curvar o cavalo. Quando um cavalo dispara, é muito útil você “dobrar” o pescoço dele e o fazer andar em pequenos círculos, porque aí ele acaba parando. Meu plano começou a dar certo e teria dado se duas coisas não tivessem me distraído: Um, nós estávamos nos aproximando (em super alta velocidade) do resto do grupo, o que me deu esperanças de que ela pararia e acabou por me distrair da minha tarefa. Dois, como eu começara a reduzir, a égua de Alena me alcançou, o que fez Lily resistir mais aos meus comandos e acelerar novamente. Nós ultrapassamos o grupo e as éguas pareciam não querer parar nunca. Foi então que eu vi. Vi algo que poderia ser tanto a minha salvação quanto a minha sentença. Havia uma cerca dividindo o pasto. Uma cerca alta com um portão fechado mais alto ainda e as éguas estavam indo para o portão. Algumas coisas cruzaram minha mente: Lily poderia parar no portão, e se isso acontecesse bruscamente, eu seria jogada para o chão. Ou, a hipótese que mais me assustou: Lily poderia tentar saltar o portão, e se isso acontecesse com ou sem sucesso, as chances de eu parar estirada no chão eram grandes. Como não me decidi entre rir ou chorar, comecei a repetir para mim mesma, mas esperando que Lily me ouvisse: “Por favor, pare no portão. Por favor, pare no portão”. E o portão se aproximando. Cada vez mais rápido. Cada vez mais perto. Como a égua não reduzia proporcionalmente à distância do portão, cogitei me jogar. Mas não o fiz. Eu não sabia como fazer e tinha medo. Então resolvi aguardar pela decisão e pelo bom senso da égua, já que a minha opinião não importava. Portão cada vez mais perto. Cada vez mais perto. Mais perto. Perto. E chegou. Finalmente chegamos ao portão. E finalmente Lily parou. Ela fez uma curva rente ao portão e súbita. Como o previsto, fui jogada para frente. Como o imprevisto, consegui me agarrar no pescoço da égua e me manter longe do chão. Ao me recuperar, olhei para Alena, que também ainda estava em cima. Ela me olhou de volta e começamos a gargalhar. Rimos, rimos e rimos até que os outros, exaltados, chegaram até nós com as bocas abertas, soltando exclamações e interrogações. Na hora, não importou. Estávamos felizes, pois mesmo sem trocar uma palavra, sabíamos que a última coisa que imaginávamos era que sobreviveríamos intactas. Falaram que nunca viram alguém ir tão rápido e ainda por cima sem sela. Eu também não. E se eu tivesse visto, nunca teria imaginado que não cairia, que sobreviveria da maneira que fiz. Também nunca senti tanto a falta de bridões como senti naquele momento. Naquela hora, senti medo, mas não acho que entrei em pânico, pois se tivesse, provavelmente esta história teria um final diferente e dolorido. Mas é por isso que gosto de cavalos, porque por mais domados que eles sejam, sempre dão um jeito de expressar sua natureza, sua sede por liberdade. E eles compartilham esses momentos com quem estiver olhando ou em cima de seu lombo. Naquela sexta-feira, Lily me emprestou sua força, sua vontade, e sua liberdade, para juntas, como uma, voarmos.


P.S.: Tinha que ter um final cândido e romântico, afinal, sou eu quem está escrevendo tudo isso.

Um comentário:

  1. Rsrsrsss... Adorei a sua aventura com a Lily. Consegui visualizar a cena e dei boas gargalhadas. Que delícia! Bjs

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