quarta-feira, 5 de março de 2014

Para sempre seis meses (06/03)

No dia três de março completei um mês em Kerikeri. O que posso dizer sobre isso? É tanta coisa que fica difícil espremer na forma de simples palavras. Mas como só disponho de letras para transmitir meus sentimentos, farei um bom uso delas.
Eu diria que estou apaixonada. Apaixonada pela vida. Estou amando todos os segundos que respiro nessa ilha. Amo simplesmente tudo o que está me acontecendo e se pudesse, viveria para sempre nessa constante: para sempre seria uma intercambista que passaria seis meses como kiwi, para sempre, viveria durante seis meses na casa de uma inglesa na companhia de uma alemã. Para sempre, durante seis meses iria para uma escola sem muros conviver com pessoas dos quatros cantos do mundo, pessoas tão curiosas e cativantes. Para sempre, durante seis meses teria matérias escolares que nunca vi no Brasil. Para sempre, durante seis meses, eu viveria neste ciclo.
Infelizmente sei que meus seis meses não durarão para sempre, por isso, sempre continuarei a torna-los eternos.
A vida aqui continua. A aula de culinária continua uma savana africana. Eu continuo acordando todos os dias às 7h40 e por aí vai...
Existem, porém, alguns detalhes que merecem destaque. Semana passada, na aula de equitação, estava tão quente que pudemos nadar com os cavalos! Nem pude acreditar que estava indo para uma hípica de saia e biquíni. Lá, tive a ideia de ir sem sela até o lago e todas me copiaram. Foi só uma pena elas não terem feito o mesmo quando Lily pisou no meu pé descalço com tudo. Doeu. Muito. Passou uma semana e meu pé ainda tem um meio círculo marcado. Quando finalmente chegamos ao lago parecíamos crianças em um parque de diversão. Foi uma delícia nadar com os cavalos, pena que Lily não partilhou da mesma opinião.
À tarde fomos dar uns pulinhos na pista. Saltamos um quick (não estou a fim de explicar o que é isso. Quem sabe sabe, quem não sabe Google it) com seis obstáculos e o último chegou a mais de um metro de altura. Lily e eu fomos as melhores!
Outro dia, na escola, alguns alunos internacionais que já montaram com a Kate ficaram surpresos ao descobrir que eu monto a tal égua. Todos falaram que ela é doida e não faz nada o que pedem. Não comigo, baby! Depois de anos montando Chocolate e Fabulosa, aquela eguinha não tá com nada.
Também queria destacar um passeio que fizemos de barco no sábado passado (01/03). Para a brasileira aqui estava muito frio, mas o que vimos a seguir compensou tudo. Além das paisagens de tirar o fôlego, devo dizer que o que mais me atraiu foi a água do mar das mais variadas cores! No fim deste post colocarei algumas fotos. No passeio vimos golfinhos, tubarões, peixes azuis, uma montanha com um buraco embaixo, pedras da época dos dinossauros e por aí vai. Mas devo confessar que o que mais vi foi meu amor pela Nova Zelândia aumentando e aumentando.
Falarei um pouco sobre as matérias que estou tendo.
Biologia, assim como no Brasil, é muito interessante e eu gosto muito. Porém, assim como no Brasil, a Biologia daqui exige os maiores e mais trabalhosos relatórios que existem. Eu ainda não acredito no tamanho do relatório que eu terei que fazer. O pior é que tal relatório é sobre um experimento (que eu ainda devo realizar) muito chato! Nele, devo reportar o comportamento de graminhas aquáticas (não sei o nome em português) quando expostas a diferentes intensidades de luz. Eu já sei o que acontece no final, eu já sei que o relatório é entediante, eu já sei que devo fazê-lo em inglês e acima de tudo, eu já sei que não quero fazê-lo de jeito nenhum. Já fiz muitas coisas desse tipo no Brasil e não estou exatamente ansiosa para repeti-las no outro lado do mundo.
Em Outdoor Education estamos aprendendo a lidar com bússolas, mapas, coordenadas, como lidar com riscos e coisas assim. Nesta terça feira, realizamos a agradável atividade de nadar de caiaque na piscina da escola. Quero dizer, teria sido agradável se não estivesse frio, chovendo e ventando. Eu saí encharcada e espirrando, mas tá tudo certo. Pelo menos nós sabíamos como lidar com casos de hipotermia (aprendemos algumas aulas antes).
Mas sem dúvidas a minha aula preferida é a de Artes. Nela, estamos individualmente dando início a um projeto. Não há muitas regras, mas devemos criar uma série de desenhos, colagens, pinturas e coisas assim feita por nós, que quando juntas, fazem sentido, há uma progressão. Acho que não expliquei muito bem, mas é complicado mesmo. Estava totalmente sem ideia do que fazer. Resolvi então começar a rabiscar em um papel algo mais ou menos assim:
Progress...
Of what?
Maybe my feeling’s progress...
Why?
Because I’ve been here for less than a month and so much happened already. I just can’t bear my feelings alone anymore. Can I share them with you?
Yes.
I’m shaking.
Eu basicamente dialoguei comigo mesma em um pedaço de papel (colocarei uma foto dele no final) e acabei por conceber a ideia da minha série. A minha sequência seria baseada no progresso dos meus sentimentos enquanto estiver aqui. O diálogo parece meio deprimido, mas é como eu estava me sentindo naquele momento.
A partir desse dia, ganhei nas aulas de Artes, um momento terapêutico e reflexivo, onde coloco meus sentimentos para fora de mim. Estou criando um diário. Escrevo e desenho muitas coisas e estou ficando bem satisfeita com os resultados, que além de estéticos, estão provando a melhora dos meus sentimentos.
P.S.: O que eu não quero que os kiwis saibam eu escrevo em português.
Sobre Judith e Alina não tenho muito o que dizer. A primeira tem um senso de humor irônico e cruel (muitas vezes parecido com o meu) e às vezes parece ser a mais jovem da casa. A segunda por mais que irritante às vezes, vem se provando uma grande companheira e amiga. Pelo o que estou vendo, nem todas as irmãs internacionais desenvolvem um laço tão forte quanto o que estou vivendo com Alina. Nós estamos muito amigas e próximas, o que é novo para Judith, que diz nunca ter recebido duas garotas que se dão tão bem (ou mal, quando uma está azucrinando a outra).

Antes, estava relutante sobre morar com uma idosa, mas agora estou vendo o quanto isso é bom: ela tem muito tempo para nós, ou seja, lava as nossas roupas e cozinha que é uma beleza. Eu estou vivendo literalmente na casa de uma avó: aqui só tem delícias todos os dias. O que me lembra que ela faz o melhor bolo de limão que já comi na vida. Fiquei tão viciada naquele bolo que a madame se viu forçada a escondê-lo de mim. É claro que ela afirmou que eu acabei com o bolo, mas um dia, enquanto eu bisbilhotava a dispensa, me deparei com uma caixa cheinha de bolo de limão! Como vingança por aquela traição, é claro que tive que comer tudo o que estava lá. Não comentei nada com ela sobre o furto e tenho certeza que ela não sabe se fui eu, o neto, o filho ou a alemã quem achou o esconderijo, mas tenho certeza que ela sabe que alguém descobriu o lugar, pois Judith partiu para outra técnica: agora ela divide o bolo inteiro em três grandes pedaços e cada uma de nós só pode comer o seu próprio pedaço. O que dizer? Finalmente a madame achou um jeito de me impedir de comer todo o bolo.



Será que eu tô feliz?









2 comentários:

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  2. Bê, minha querida,
    A sua alegria e a sua poesia são minhas também.
    Quando você desenha as diversas cores do mar.
    Eu as vejo aqui.
    Quando você cavalga no rio, eu também me refresco.
    Divirta-se Loirinha, que sua alegria é a minha.
    Te Amo,
    Daniel

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